sábado, 1 de janeiro de 2011

China Doll, ou a boneca que falava pior do que se falasse em chinês


Ninguém entendia o que ela dizia. Nascera muda, apesar do dom das palavras cada vez mais aprimorado... talvez com menos jeito, mas que galgava, galgava, esse tal do dom das palavras. Talvez o sítio onde estivesse chegando desse modo, não fosse o melhor sítio, mas pelo menos era um sítio, e sempre se chega, já que é preciso que se chegue para se poder partir. Apesar disso, ninguém entendia. Do lado de fora, não se ouviam as palavras. Gesticulava, abria e fechava a boca, mas do lado de fora, não havia palavra que se ouvisse. Não conseguia. E quando conseguia, as palavras misturavam-se-lhe na boca, embaraçavam-se-lhe por entre língua, dentes e traziam consigo significados que não lhes atribuía... mas as palavras era ela quem as proferia... mas ninguém entendia o que ela dizia... ou o que ela queria dizer. Estava só para sempre, guardada dentro da redoma de vidro, só com aquelas palavras que só ela entendia... ou que nem ela entendia.

A Boneca Teimosa


A boneca de porcelana não gosta por aí além de poesia em verso... mas algumas das que mais gosta estão escritas em verso... mas não foi ela quem as escreveu; que para ser ela quem as escreve, prefere escrevê-las em prosa do que em verso, se não leva ali toda a vida e mais três dias para achar palavra que rime... mas mesmo quando apanha prosa poética ela gosta mais do que a prosa em verso, diz que as coisas vêm mais explicadas e tal... mas quando faz poesia em prosa, a boneca mete as palavras a rimar umas com as outras... a fazer lembrar os versos... e você que aqui me lê pergunta com propriedade: porquê? Porque a boneca um dia foi à escola e na escola havia uma professora de Língua Portuguesa que lhe disse que não o fizesse... que soava mal... que procurasse outra palavra... e foi então que a boneca o fez. Não procurou outra palavra e nunca mais conseguiu parar.

A futilidade da boneca


Era uma vez uma boneca que era mesmo muito fútil. Deixava-se apaixonar por tudo e por nada, e às vezes, mas só às vezes, por todos. Pessoas, a boneca apaixonava-se pelas pessoas de que gostava e logo começava a dar tudo, a esquecer-se dela mesma; assim, sempre assim, com toda a gente. Mas as pessoas não queriam, não gostavam. Umas entendiam não carecer a boneca de retorno, pois que a entendiam como um poço de generosidade sem fundo. Deixassem-na a ela dar tudo, que era ainda favor que se lhe fazia. Outras pessoas não queriam, tinham medo que a boneca viesse pedir algo em retorno, tirar-lhes algo que lhes é tão caro... e ouviam nas palavras da boneca palavras de cobrança, mesmo sem ela as proferir. Essa boneca era mesmo muito fútil. Ia trabalhar a sorrir, e só as pessoas fúteis, ingénuas, inconscientes e superficiais vão trabalhar a sorrir. E fazia coisas assim, que só as pessoas fúteis e superficiais fazem. E a música da futilidade da boneca tocava na grafonola... o disco girava, girava, num movimento rotatório inebriante, hipnotizante e estupidificante, sempre a mesma música, a mesma nota, presa debaixo do bico da agulha, sempre a mesma nota, uma e outra e outra vez, por mais que a boneca se debatesse, por mais que fizesse... é que ela era mesmo muito fútil.

Deixar a casca

As cascas... os ovos... a barriga da mãe. Estava-se lá tão bem... estava-se lá tão quentinho e tão quietinho... mas se o mundo é feito de desinquietações... se isso de estar quietinho é coisa para se fazer quando não se está lá muito vivo, que por vivo entende-se acompanhar o fluxo do devir, seguir com a corrente dos acontecimentos, deixar que a mudança constante nos mude... Não, não era preciso sair da casca... não era preciso existir sequer... se não se existisse seria o ser humano tão mais sábio, do que existindo... se a mudança traz sabedoria, ficar quietinho e escutar trá-la também... talvez não dentro da barriga da mãe... nem da casca. Mas tornando-nos eternos também se aprende, aprende-se mais ainda, sobrevive-se ao devir, tornamo-nos imparáveis mutantes superficiais, mas imutáveis na essência... há tantos caminhos para chegar ao mesmo sítio... escolhamos o mais longo, que é o que leva mais tempo a percorrer, que é aquele onde mais se aprende, que é aquele onde, em relação ao ponto de chegada, menos se anda... se o que interessa não é a chegada, mas o caminho, o prazer da viagem, de sermos viajantes no tempo e nos acontecimentos... talvez um dia consigamos parar... mas se o mundo em constante mudar nos empurra e nos obriga a andar... talvez um dia, depois de parar, comecemos a andar para trás... as pessoas não gostam de andar para trás, mas... via-se outra vez a mesma paisagem... reavaliavam-se as coisas, reescreviam-se as histórias e a História... para quê sair da casca....

Growing Up


Sometimes, porcelain dolls grow up. But it hurts them.

See what I mean...



Scary Dolls - The Rationale or The Horrible Truth
This is the stuff of horror movies

They’re not monsters. They’re just angry, demented dolls that have seen better days. There’s a reason why some people, more sensitive to the other side than they probably realize, are afraid of dolls. Dolls can be used as portals for unhappy female souls. They can therefore become cute little threats to the world. Store bought nightmares with shiny, ceramic, unblinking eyes. We are afraid of dolls, and for good reason. We know the truth. We’ve seen what dolls are capable of.

Mais aqui.

Are you ready??

Para ler bué da disparates?

PorcelainE Dolls


Não costumam sorrir grandemente. E quando o fazem, é sempre aquele sorriso cínico, frio, distante. Ali estão, a observar-nos, como se estivessem a armazenar todos os nossos segredos, dos mais inocentes aos mais terríveis. Cheias de caracóis, com vestidos de rendas, e laços, e mais laços... algo muito "retro", muito romântico, muito século XIX ou XVIII. Mas por que motivo paracem tão racionais, tão frias, tão calculistas? Ás vezes, ponho-me a olhar para elas. De frente. Nos olhos. E nos olhos, paira névoa. O que estarás a pensar? - penso eu.

E ela responde: "És má, és anormal, és desajeitada, és parva."


Eu gosto muito de bonecas de porcelana.