sábado, 1 de janeiro de 2011

A futilidade da boneca


Era uma vez uma boneca que era mesmo muito fútil. Deixava-se apaixonar por tudo e por nada, e às vezes, mas só às vezes, por todos. Pessoas, a boneca apaixonava-se pelas pessoas de que gostava e logo começava a dar tudo, a esquecer-se dela mesma; assim, sempre assim, com toda a gente. Mas as pessoas não queriam, não gostavam. Umas entendiam não carecer a boneca de retorno, pois que a entendiam como um poço de generosidade sem fundo. Deixassem-na a ela dar tudo, que era ainda favor que se lhe fazia. Outras pessoas não queriam, tinham medo que a boneca viesse pedir algo em retorno, tirar-lhes algo que lhes é tão caro... e ouviam nas palavras da boneca palavras de cobrança, mesmo sem ela as proferir. Essa boneca era mesmo muito fútil. Ia trabalhar a sorrir, e só as pessoas fúteis, ingénuas, inconscientes e superficiais vão trabalhar a sorrir. E fazia coisas assim, que só as pessoas fúteis e superficiais fazem. E a música da futilidade da boneca tocava na grafonola... o disco girava, girava, num movimento rotatório inebriante, hipnotizante e estupidificante, sempre a mesma música, a mesma nota, presa debaixo do bico da agulha, sempre a mesma nota, uma e outra e outra vez, por mais que a boneca se debatesse, por mais que fizesse... é que ela era mesmo muito fútil.

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